Reportagem Especial: Upa Akira Tada, pacientes entregues a própria sorte. (parte 2)

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Na Upa Akira Tada não tem Raio X e pacientes ficam sem fazer exames específicos
Na UPA, foi confirmada a presença de três médicos, mas só trabalhava uma médica. Antes mesmo da triagem a unidade já apresentava problemas. Veja a seguir o relato de um repórter do jornal infiltrado para sentir os problemas pelo lado mais duro o atendimento médico nas Emergências da cidade. Parte dois.

"Entro na UPA e vejo o salão principal tomado de pessoas. Mais de 65 lugares todos ocupados. Umas 15 ou 20 pessoas de pé". Foto tirada de tefone celular pelo repórter do jornal Hoje
“Entro na UPA e vejo o salão principal tomado de pessoas. Mais de 65 lugares todos ocupados. Umas 15 ou 20 pessoas de pé”. Foto tirada de tefone celular pelo repórter do jornal Hoje

UPA Akira Tada
A UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) Akira Tada, localizada na Estrada do São Francisco, fica bem ao lado do ponto de diversos ônibus que percorrem a região do Jardim Maria Rosa. A vista é magnífica, sendo possível admirar o Shopping Taboão e o largo que foi construído para organizar o trânsito naquela área.

A construção, com térreo e subsolo, tem uma pequena área para a entrada de veículos. Uma construção confusa para hospitais emergenciais. Do meu lado direito, está uma senhora com a boca protegida e aparentemente enfraquecida. Um funcionário, ao que parece do local, conversa com ela e tenta ajudá-la. Passando a pequena guarita à minha esquerda, diviso umas 15 pessoas do lado de fora do posto.

Entro na UPA e vejo o salão principal tomado de pessoas. Mais de 65 lugares todos ocupados. Umas 15 ou 20 pessoas de pé. Do meu lado esquerdo, ao fundo, um segurança guardando o acesso para o subsolo da construção. Ao fundo, do lado esquerdo, o acesso a duas saletas que é possível ver facilmente, onde estão alguns enfermeiros ou médicos, que se revezam para chamar pessoas que se inscreveram para ser atendidas. À frente, um funcionário vestido diferentemente, bastante corpulento, que deixa, ou não, os interessados passarem a linha imaginária que divide os pacientes dos consultórios específicos.
Percebo, sem que ninguém me informe, que a fila para o cadastramento para ser atendido está à minha direita. Nessa fila, sete pessoas para três guichês. Percebo então que não há indicador numérico de quem irá ser chamado no salão principal. As chamadas são por nome. Espero uns cinco ou dez minutos e sou atendido no guichê. A atendente, muito simpática, pede o meu RG e o meu cartão do SUS. Diz o que acontece comigo. Eu respondo. Ela recebe um comunicado dizendo que uma pessoa, que se identifica como “funcionário do PoupaTempo”, quer ser atendido com preferência – ou seja, passando na frente dos outros. Ela ri. Conversamos algo a respeito. A atendente verifica que pareço cansado e me pede para ir até uma determinada sala e que eu peça para que me seja feito tal e qual procedimento.

Vou até lá, uma saleta quase na entrada dos consultórios propriamente ditos, e lá um atendente bastante rigoroso me pergunta algo e outra atendente, já menos rigorosa, mede alguns dados do meu corpo. Sou bem atendido, minha ficha chega e sou liberado para esperar. Passei pela triagem, portanto.

Sento numa cadeira das primeiras filas no grupo próximo aos guichês de cadastro e às minhas costas dois rapazes conversam sobre futebol, quando chega a esposa de um deles com um bebê de colo. Disse ela que o garoto foi diagnosticado com dengue, mas que não aceitaram que ele fosse internado até a verificação se ele tinha determinado quantidade de plaquetas. Segundo ela, o médico lhe dissera que se o garoto apresentasse outro número de plaquetas ele seria internado. O garoto não aparentava a moléstia e os rapazes não tiveram outra saída a não ser ir embora. Ela ensaiou uma reclamação, mas também nada disse a mais.

Nos primeiros 50 minutos de espera vi poucas pessoas sendo chamadas pelo nome. Mas, de repente, próximo às 13h, os atendentes começaram a dizer o nome de vários pacientes. Foi assim que pude perceber que nos primeiros 60 minutos umas 30 pessoas, mais ou menos, entrando nos consultórios.
Fiquei mais um tempo naquele ponto do posto. Chegou um casal: uma garota de 30 e poucos, baixa, bonita e bastante mal, tentando se cobrir, quase chorando e com dores generalizadas. O marido, um rapaz alto e forte, conversou comigo. Segundo ele, tanto ele quanto ela pareciam estar com dengue.
Aos poucos, passei a notar que havia pessoas ali que estavam bem piores que a média. Essas pessoas eram, aos poucos, atendidas preferencialmente e saíam da sala principal. Mas algumas ficavam também, se lamentando de alguma dor ou pelo menos descansando.

Saí desse ponto do posto e dirigi-me novamente às cadeiras próximas aos guichês de cadastro. Chegou então um rapaz de 30 e poucos anos, moreno, de compleição forte mas com uma postura estranha. Reparei que ele parecia ter se machucado na perna esquerda. A atendente – outra, pois havia ocorrido a troca de plantão – pediu que ele se dirigisse a outro guichê, o que ele fez com alguma dificuldade, pois precisava manter a perna esquerda estendida. Preenchida a ficha, ele sumiu de minha vista. Reparei que ele não se sentia nada bem.

Dei então uma olhada no corredor dos consultórios. Eu não havia sido chamado ainda, e estava já melhor do que eu dizia sentir. Reparei que havia somente uma porta aberta naquela direção – embora houvesse mais movimento lá no fundo do corredor – e perguntei a uma pessoa que havia entrado quantos médicos ela havia visto atendendo as pessoas. Ela disse que vira apenas um médico (uma médica). Eu achei estranho e, quando saiu uma pessoa lá de dentro, perguntei a mesma coisa. A paciente disse que vira uma médica, mas que havia outras no subsolo. Perguntei então ao segurança quantos médicos estavam atendendo. Ele me disse que pela manhã haviam aparecido no posto quatro médicos. Vi então duas médicas entrando e saindo das saletas do subsolo e concluí que pelo menos três médicos estavam atendendo toda aquela gente.

Haviam se passado mais de 3 horas (na verdade, 3h e meia) quando saí do local. Encontrei a garota dos 40º de febre e perguntei a ela o que acontecera. Ela me disse ter sido atendida, diagnosticada com dengue e que haviam lhe receitado Dipirona. Ela disse à médica que já tomava aquele remédio, mas que isso não fez diferença. A garota estava sozinha (o marido iria continuar no posto) e revoltada. Disse que tinha de pegar o filho em São Paulo e que não sabia aonde teria de ir para resolver o seu problema.

Encontrei o rapaz que havia se machucado na perna. Ele estava próximo ao muro do posto e esperava alguém. Conversei com ele, que me contou que caíra, em linha reta, de uma plataforma (não muito alta) e que estava machucado na perna e no tórax. Mostrou-me as regiões da axila e do peito. Disse-me que, embora tenha sido atendido, não lhe foram tiradas radiografias nem dado nenhum medicamento. Ele disse que iria a outro hospital e que um amigo iria leva-lo até lá. Realmente, chegou em seguida uma caminhonete. Ele entrou no banco de trás.

Haviam se passado quatro horas desde que eu chegara ao posto. O posto, como se sabe, deveria ser de pronto atendimento. Pelo que pude ver, não era nem uma coisa nem outra.

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