REPORTAGEM ESPECIAL: Sem médicos os pacientes sofrem nos hospitais da cidade

0
177

Na primeira parte Antena: No Hospital apenas três médicos atendiam pacientes que superavam a casa de mais de 110 em períodos de espera que superavam as 3h. O repórter do Jornal Hoje ficou mais de duas horas para ser atendido na triagem e não conseguiu

Pessoas que chegavam com dores eram atendidas mais rapidamente na triagem, mas sem confirmação de atendimento final (continuavam nos corredores). Pessoas diziam que somente após 4 horas poderiam esperar ser atendidas. Havia queixas de pessoas sendo passadas na frente das outras. Na UPA Akira Tada, para alguns casos a triagem era realizada rapidamente, mas as pessoas esperavam mais de 3 horas sem atendimento. Nessa UPA, casos atendidos rapidamente eram liberados sem tratamento adequado, um bebê com suspeita de dengue foi liberado para acompanhamento de plaquetas; uma moça com mais de 40º C de febre recebeu indicação de Dipirona, que ela já tomava; e um acidentado em trabalho foi liberado sem efetuar raios-X e deixado ao Deus dará e muitas pessoas ficavam à espera para atendimento sem previsão sequer de passar na triagem.

Na UPA, foi confirmada a presença de três médicos, mas só trabalhava uma médica. Já no Pronto-Socorro Infantil do Pirajuçara, mais de 60 pacientes esperavam mais de duas horas na fila, antes mesmo da triagem, para atendimento por três médicos num pronto-socorro com apenas três saletas para isso. Veja a seguir o relato de um repórter do jornal infiltrado para sentir os problemas pelo lado mais duro o atendimento médico nas Emergências da cidade.

PS Antena

Pacientes ficam horas em pé esperando o atendimento do Pronto Socorro Antena. Muitos passando mal e sem estrutura para acolhimento
Pacientes ficam horas em pé esperando o atendimento do Pronto Socorro Antena. Muitos passando mal e sem estrutura para acolhimento

Cheguei a Unidade Mista de Taboão da Serra, mais conhecido como Antena, com a proposta de um atendimento. A construção, térrea e de grandes proporções, tem uma forma bastante confusa. A entrada é ladeada por bancos de concreto em que algumas pessoas esperam, e a passagem é forçada por fitas de demarcação em uma só direção.

A entrada principal consta com fileiras de cadeiras de alumínio, somando uns 20 lugares. São duas atendentes e para ser atendido é necessário pegar uma senha, que é indicada por um luminoso. Ali chegando, encontramos menos de 10 pessoas esperando a sua vez, que não demora muito. Há na espera desde jovens cansados até senhoras aparentemente sem problemas ou idosas que chegam bastante debilitadas. Sento-me para ver como funciona. Após pegar minha senha, chega uma senhora baixa, vestida com blusa amarela, que não sabe como funciona. Digo a ela que precisa pegar senha, mas ela resiste, e pergunta se posso pegar para ela. Eu pego. A próxima sala é a da triagem. São duas saletas com enfermeiros chamando, uma a uma, as pessoas. Esperam nessa sala mais de 30 pessoas, sentadas e em pé. Há de tudo um pouco. Desde homens corpulentos dizendo que estão se sentindo mal até pessoas machucadas por quedas, por exemplo, e idosos quietos e cansados. Ninguém reclama.

Avanço no corredor e chego a outra sala, agora não de triagem, com cadeiras para mais uns 30 lugares e bastante gente em pé. Não há ordem aparente nesta sala, que é ladeada por um corredor com gente dispersa pelos cantos, em frente a oito portas para consulta. Ali, mais umas 30 pessoas esperando. Vejo duas dessas portas de consulta com médicos atendendo.
Do lado esquerdo do corredor, aparecem vidros que mostram uma grande sala em que diversos pacientes recebem inalação. São por volta de 10 a 15 lugares. O lugar parece um aquário que divide quem já recebe alguma atenção de quem nada parece esperar de concreto ao menos nas próximas horas.

Volto à sala de triagem e espero. Enquanto espero, chega novamente aquela senhora da blusa amarela, gritando de dor. As pessoas ficam incomodadas em ver a dor da senhora, e passam alguns minutos para que um dos médicos das salas de triagem peça a outra pessoa do posto que faça alguma coisa. O atendente lhe pergunta algo, com certo tom bonachão e é conduzida à sala de espera propriamente dita. Mas não parece muito melhor.

As pessoas continuavam chegando, o atendimento nos guichês seguia e as pessoas avolumavam-se cada vez mais. Um senhor idoso, com vestimenta de paciente, andava por cada um dos corredores com olhar mortiço aparentemente atrás de algo que não encontrava. Aproximava-se de um enfermeiro, não falava nada, ouvia algo e continuava andando. Falei com um rapaz alto e forte, que me disse que estava esperando há 50 minutos (isso foi na primeira hora que fiquei lá) sem sequer passar pela triagem. Como já sabia em que pé estava lá dentro, cogitava ir embora. Perguntei-lhe qual era seu problema. Ele me disse que estava se sentindo meio mal, mas que morava perto. Passaram-se alguns minutos e não o vi mais.

Perguntei à recepcionista quantos médicos estavam atendendo. Ela me disse não ter certeza, mas depois de alguns minutos me disse que normalmente apareciam uns três, só para a área comum (ou seja, o atendimento tradicional). Vim saber que do lado direito ficam as salas de internação e outro tipo de atendimento (até o lugar onde armazenam os corpos de gente que vem a falecer), mas essa área é fechada ao público comum. Perguntei pelos nomes dos médicos, ela disse não saber.

Voltei às salas de triagem para ver se o meu nome era chamado. Já haviam se passado 1h30 desde que eu chegara e nada sequer de triagem. Vejam, a triagem era apenas a fase inicial. Depois haveria o atendimento propriamente dito e o tratamento. O atendente jovem – o mesmo que atendeu a senhora de blusa amarela – começou a chamar um rapaz chamado Elton. Daí ele começou a brincar chamando-o de Elton John. Passados alguns minutos, continuava chamando-o, em meio a outros nomes, de John Lennon, como se estivesse brincando com algo que só ele achava graça.

As pessoas continuavam chegando e se avolumavam em todos os ambientes, menos na entrada, afinal as atendentes dos guichês trabalhavam bem rápido. Meu nome não era chamado, então voltei ao corredor onde estavam os consultórios. Não vi mais do que dois médicos – diziam que eram três –, e as pessoas começavam a se acotovelar em frente às poucas portas abertas. Sentei perto de dois senhores. Um deles acompanhava o outro, que parecia estar – segundo o amigo – com suspeita de dengue.

Conversei com o amigo e ele, que mora ali perto, me disse que o Antena não costuma ser tão lotado. Que, segundo ele, a epidemia de dengue tem causado tudo isso. Eu havia conversado com outras pessoas, realmente, e elas me disseram que na região não havia passado nenhum controle epidemiológico de respeito. Mas ele também me disse que em 2008 havia ficado internado no local por 15 dias e que via muitas pessoas entrando e morrendo sem serem submetidas a muitos cuidados. Segundo ele, alguns casos eram mesmo crônicos, mas outros ele desconfiava que não. Nessa época, segundo ele, o Pronto-Socorro não era terceirizado, e, apesar do que dissera, e ainda na sua opinião, muito melhor do que hoje.

Rimos bastante de histórias da vida e saí para verificar mais alguns casos. Houve uma senhora que começou a passar mal, foi conduzida ao banheiro feminino de forma atabalhoada e improvisada, saiu aparentemente bem e continuou esperando. Houve uma senhora e filha que estavam com suspeita de dengue e que permaneciam 2 horas esperando sem serem atendidas. A filha me dissera que ali só se é atendido fazendo barraco. Ela mesma disse que uma vez só conseguiu que a atendessem porque gritou e fez escândalo. Elas permaneceram mais algum tempo, o suficiente para a mãe dizer que ali ainda não haviam passado 4 horas. Perguntei o que era isso. Ela me disse que uma pessoa ali era, tradicionalmente, atendida só após 4 horas de espera.

Eu precisava da lista dos médicos do local e o segurança me disse que poderia encontra-la na parte administrativa. Não havia ninguém lá, e fucei o que estava exposto. Havia uma lista de médicos, que fotografei. Não pude ver a que essa lista se referia especificamente, mas parecia ser a lista do dia. Os pacientes mais graves deveriam saber que tipo de médico atendia aquele dia, imaginei eu. Fui embora sem ser atendido e tendo visto apenas duas pessoas saindo, bem no começo de minha entrada. Os outros perambulavam ou esperavam sem tempo de espera.

O Outro lado
A prefeitura não retornou o contato com o jornal e a Organização Social de Saúde, SPDM limitou apenas em dizer que só a prefeitura pode informar sobre o números de médicos que atuam nos hospitais da cidade.

Propaganda

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

*