Presidente da Câmara Municipal de Embu, Doda, concede entrevista exclusiva

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O atual presidente da Câmara Municipal de Embu das Artes, Sandoval Soares Pinheiro, o Doda (PT), aceitou um convite do jornal Hoje em Notícias e concedeu uma entrevista exclusiva em seu gabinete, momento que os legislativos entraram em recesso em todo o país. Doda, que teve uma ascensão meteórica em sua curta vida pública não fugiu a nenhuma questão do Hoje, sobre assuntos variados. Família, política, interesses, influências e aspirações pautaram essa conversa apimentada com o vereador embuense.

*Por Redação Hoje.

Hoje: O que te motivou a entrar na política. Quais foram suas aspirações?

Doda: Eu particularmente sempre vi a política como instrumento de mudança de vida das pessoas. Eu, na verdade, acabei vindo pra área política através dos movimentos sociais ligados a Igreja Católica. Desde criança eu sempre fui levado pra Igreja pelos meus país e irmãos mais velhos, conheci as comunidades eclesiais de base e a partir de então comecei a me interessar pela vida social e pelos problemas de fato da sociedade. Então o meu interesse partiu disso. Eu não aspirava chegar a presidência da Câmara no primeiro mandato. Acabou acontecendo, é um desafio muito grande, e estamos assumindo com muita dedicação pra se Deus quiser fazermos um bom trabalho.

Hoje: Fale-nos um pouco da sua história e como você chegou a Embu das Artes?

Doda: Eu sou de Assaré, Ceará, sou cearense, vim para São Paulo em 1980 com seis anos de idade. Estou com 38 anos e estou morando aqui em Embu das Artes há 32 anos. Vim direto para Embu aqui no bairro do Pirajuçara. O motivo que a minha família decidiu vir para São Paulo acho que a maioria das famílias do Nordeste, vida difícil, muita seca, muita fome, muito sofrimento, e você vêm em busca de uma vida melhor. Como a grande maioria das famílias vem para São Paulo, pra cidade grande como costumamos dizer, em busca de condições de trabalho, de moradia, e das outras coisas básicas que todo o ser humano precisa.

Hoje: Você é filho único?

Doda: Filho de nordestino você sabe como é que é (risos). Minha mãe ela teve 16 filhos. Faleceram cinco e hoje nós somos em 11 irmãos. Uma família muito grande. Desses 11 irmãos que tenho hoje são três homens e oito mulheres. Tenho uma irmã que mora em Taboão (da Serra), Uma no Valo Velho (São Paulo) e outra que mora em Ibiúna. Os outros moram todos aqui na cidade.

Doda foi entrevistado pela redação do Hoje em Notícias, do jornalista Mário de Freitas - Foto Alexandre Oliveira
Doda foi entrevistado pela redação do Hoje em Notícias, do jornalista Mário de Freitas – Foto Alexandre Oliveira

Hoje: Qual é a sua formação?

Doda: Eu sou psicólogo e pós graduado em Gestão Pública. Conclui o meu curso de psicologia em 2006, trabalhei na área por alguns anos e ai como eu me interessei em estar mais a frente na política, disputando as eleições, eu acreditava que precisava também buscar um conhecimento na área e não ficar somente com a prática da política. Eu achava que a teoria também é importante. Então eu fui fazer um curso de pós-graduação em Gestão Pública em 2009 e concluí em 2010.

Hoje: Quando o PT surgiu na sua vida?

Doda: Eu sempre gostei de militar pelas causas sociais. Na verdade eu sempre fui um simpatizante do PT (Partido dos Trabalhadores). Como militante, mesmo sem ser filiado. A minha filiação no PT aconteceu em 2007. Não fui filiado a nenhum outro partido. Eu tinha o interesse em disputar as eleições em 2008.

Política

Hoje: A redação teve acesso a informações de bastidores que na época de sua candidatura, nesta última eleição, o nome Gildeon estava muito ligado a sua pessoa. Houve quem desse como certo que ele seria o então candidato do PT à conquista do posto de vereador e posteriormente a presidência da Câmara, mas devido um racha interno o seu nome ganhou força como uma segunda via. Você confirma essa história e porque o Gildeon foi impedido de disputar pelo PT as eleições?

Doda: São muitas perguntas dentro de uma. Eu particularmente sempre me vi, não que eu seja melhor do que ninguém, mas eu sempre me vi como uma opção pras eleições. E a prova disso foi a eleição de 2008. Nas eleições de 2008 o doda apareceu do nada praticamente. As pessoas políticas da cidade não conheciam o Doda. Disputei as eleições de 2008 com muita dificuldade, sem nenhum recurso financeiro praticamente. Tive ajuda do partido. Tive ajuda de algumas pessoas ligadas ao PT. Tive ajuda de alguns amigos, muita ajuda da minha família e do grupo de apoio que nós tínhamos. E tive 1665 votos. Quando eu fui disputar a eleição de 2012, eu já fui disputar a eleição credenciado porque eu já tinha passado por um processo eleitoral, e era natural o crescimento na votação, pelo trabalho que eu continuei fazendo junto com o grupo de apoio de 2008 pra 2012. As vezes as pessoas acham que você teve voto porque alguma pessoa de peso veio apoiar a candidatura. Não, a gente terminamos a campanha de 2008, tiramos um planejamento e começamos a trabalhar a campanha de 2012 e essa preparação durante os quatro anos foi o que deu condições de a gente chegar bem em 2012.

Hoje: E o recurso veio com mais facilidade para esse pleito?

Doda: O recurso ele nunca vem com facilidade. Porque é assim: as pessoas elas não apostam em quem tem chances de ganhar. Essa é uma realidade em qualquer área e não somente na política. As pessoas não querem apostar em quem talvez vá chegar. As pessoas querem apostar em quem vai chegar. Esse quatro anos é claro que eu me preparei pra ter condições melhores pra fazer campanha. E a gente sabe que infelizmente hoje você não faz campanha só com carisma, como também você não faz campanha só com dinheiro. Você tem que aliar uma estrutura financeira com uma boa candidatura se não você não consegue chegar.

Hoje: Quanto custa uma campanha para vereador?

Doda: Depende. Tem gente que ganha eleição gastando R$ 50 mil, tem gente que ganha eleição gastando R$ 20 mil. Tem gente que ganha eleição gastando R$ 100 mil. Gastando R$ 200 mil. Gastando R$ 500 mil. Tem gente que gasta isso e não se elege. Então depende muito de como cada candidato prioriza o investimento do dinheiro na sua candidatura.

Hoje: Em sua opinião, fazer uma campanha vitoriosa, uma campanha com bastantes votos, quanto custaria?

Doda: Na minha humilde opinião eu acho que uma campanha que dá pra fazer uma campanha muito boa, e uma campanha que você tem condições concretas e reais de se eleger eu avalio que de R$ 100 a R$ 150 mil reais, na minha opinião.

Hoje: Voltando a questão do Gildeon..

Doda: O Gildeon ele é um companheiro filiado ao PT há muitos anos. Ele já mora na cidade desde 2009. E ele tinha a pretensão de disputar as eleições de 2012, como todo filiado tem essa pretensão. Infelizmente aconteceu um problema na escolha dos candidatos, porque é assim: eu não sei como é que funciona nos outros partidos, mas no PT é assim, se nós tivermos direito a 22 vagas pra vereador, a gente passa por uma convenção e quem escolhe os candidatos são os filiados. Há uma votação interna e são os filiados que escolhem os 22 nomes. É as prévias. Nessa prévia, se não me engano, eu tive mais de 100 votos.

Hoje: Quanto filiados tem o PT?

Doda: Um pouco mais de mil. Não sei te precisar direito porque ano a ano acontece muitas filiações.

Hoje: O Gildeon apoiou o senhor na sua candidatura? Como é essa relação?

Doda: O Gildeon é assim. Ele teve uma participação importante na minha campanha. Com certeza me ajudou, me apresentou pra vários pastores da Igreja Casa da Benção que ele é membro há muitos anos. Então eu não posso dizer que ele não me ajudou. É um cara que tem uma participação dentro desse segmento evangélico boa na cidade e me apoiou e apoia indiretamente. Não apoia diretamente porque eu acredito que ele tenha a intenção de ser candidato na próxima eleição, então acredito que ele vá trabalhar pra isso. Foi uma ajuda pontual, mas me apoia, apoia o mandato e sempre que pode ele ta procurando fortalecer as ações do mandato, mas sem nenhum compromisso maior político.

Hoje: Você precisa se reportar a ele sobre suas decisões políticas?

Doda: Não, eu sou um cara muito seguro daquilo que eu faço. Isso não é soberba. Essa segurança você conquista com o dia-a-dia, com o trabalho que você faz, com as decisões que você toma. Então eu particularmente quando eu quero tomar uma decisão política às vezes eu não consulto nem a linha de frente do meu grupo de apoio. Talvez eu esteja errado. Em alguns momentos eu confesso que eu fiz até umas coisas erradas. Mas também sempre assumi os meus erros.

Hoje: O mandato é do partido ou do vereador?

Doda: O mandato ele é dos dois. Dizem que o mandato é do partido no sentindo da fidelidade partidária. Enfim, mudaram a lei pra evitar aquele troca-troca de partido. Mas o mandato ele é compartilhado. Não tem como você fazer o mandato sem consultar o partido e não tem também como o partido querer decidir as ações do mandato de vereador. O que eu tenho que fazer é prestar conta do meu mandato para o partido e para toda população.

Em destaque, presidente da Câmara municipal de Embu das Artes, o vereador Doda. - Foto A.O
Em destaque, presidente da Câmara municipal de Embu das Artes, o vereador Doda. – Foto A.O

Hoje: Você disse a pouco que as vezes toma decisões não é discutida com a sua própria base. Você já foi questionado por essas decisões na liderança partidária?

Doda: Quando eu digo tomar decisão sem consultar é que tem hora que não dá tempo de consultar. Numa sessão, por exemplo. Você precisa tomar uma decisão ali. Você não tem tempo de consultar, as vezes não tem tempo de consultar nem os assessores próximos, mais diretos, os de gabinete por exemplo. Por que não dá tempo. É uma decisão que você tem que tomar ali. Aconteceu um problema, por exemplo na sessão, alguém fez uma fala contra o governo, contra o PT. Que decisão você vai tomar? Você já tem que tomar a decisão ali. Quando digo da segurança daquilo que eu estou fazendo é nesse sentido.

Hoje: Na gestão passada era comum a Câmara Municipal receber os projetos emitidos pelo executivo com status de “regime de urgência”, dando pouca liberdade aos vereadores de estudarem o projeto e até mesmo se contraporem a alguma questão mais controversa. Na sua gestão, iniciada em janeiro deste ano, houve um buchicho de bastidores indicando que você teria questionado o prefeito dessa necessidade. Como você está lidando com essa prática? Você teve algum problema com o prefeito nessa questão?

Doda: Eu particularmente penso o seguinte: o projeto de regime de urgência é garantido pelo requerimento, então ele pode ser protocolado a qualquer hora, inclusive até quando a sessão já tiver iniciada. E se ele for protocolado com regime de urgência e como a palavra diz, se ele tiver a urgência para sua aprovação, acho que ele deve ser apreciado e deve ser aprovado, como por exemplo os que nós aprovamos ontem (26/06). Tem alguns projetos em regime de urgência que se você não aprova você perde o prazo. E se você perde o prazo, você perde o repasse financeiro, por exemplo. E ontem foi a título, porque era a ultima sessão antes do recesso. E se não votássemos ontem ai só votaríamos em agosto. E ai teve a questão da redução da tarifa, da instituição de uma audiência pública, e do índice de IPCA para os próximos reajustes na tarifa. Então é um regime de urgência que é de interesse de toda uma cidade. Você não pode por conta de querer discutir melhor o projeto e avaliar melhor travar também o interesse coletivo, que na minha visão é muito mais importante. Agora em relação a projeto de urgência eu reclamei e vou reclamar sempre. Porque eu acho que é o papel do vereador ele ter o projeto na íntegra para ler e ter o conhecimento daquilo que ele está votando e também para propor uma mudança uma melhoria no projeto se caso for necessário.

Hoje: Então o senhor não mudará essa pratica em caso quando um projeto for levado a regime de urgência, mas não for tão urgente assim?

Doda: É o que eu estou te falando, quando o projeto em regime de urgência for do interesse coletivo, ou seja, que vai beneficiar diretamente o munícipe você tem que colocar para votar o mais rápido possível.

Hoje: Há tempo hábil para um vereador apreciar a integra do projeto de urgência após sua entrada na Câmara?

Doda: Quando o projeto chega em regime de urgência, eu não estou dizendo que a gente tem tempo de apreciar. A gente tem um tempo de apreciar. Tem um tempo de ler. Tem a reunião antes de colocar o projeto pra estar sendo votado. O que eu digo é o seguinte: se caso nós tivermos um tempo de pelo menos ter o projeto em mãos durante dois dias, uma semana, é muito melhor pra que você possa até contribuir para melhorar o projeto. Vou te dar um exemplo claro: veio um projeto para tramitar em regime normal. Era para dar aumento para os professores do cursinho pré-vestibular. Eu coloquei pra votar na sessão seguinte. Por quê? Como eu vou deixar 45 dias o projeto tramitando sendo que é de interesse direto do professor. Entendeu. Então eu acho que é essa sensibilidade que você tem que ter.

Hoje: Como você avalia sua relação com a pessoa do prefeito Chico Brito?

Doda: A relação ela é boa, sempre foi boa. É claro que sempre nós temos as dificuldades do Poder Legislativo e do Poder Executivo, porque querendo ou não é sempre um poder disputando um espaço com o outro. Porque ninguém é inocente na política. Nós sabemos que é uma relação boa, que a tendência é melhorar a cada dia, mas que sempre nós teremos divergências políticas, divergências de projetos, de visão de política, de interesses políticos, e isso tudo faz parte da democracia.

Hoje: No início do ano ventilou pelos bastidores da famigerada classe política que você teve uma rusga com o prefeito e que na ocasião o Chico sugeriu que você deixasse o cargo da presidência da Câmara caso você não aceitasse as ordens dele. Como você viu essa questão? Você confirma esse episódio? E depois dessa história, como ficou a relação de vocês?

Doda: Na verdade é assim, acho que é bom até a gente explicar. Tivemos uma dificuldade, tivemos. Mas é assim, em nenhum momento o prefeito pediu pra eu deixar o cargo de presidente. E se pedisse também não deixaria. Eu quero deixar bem claro, pra gente não ter nenhuma dúvida. O cargo é meu não é dele. Quem está na função sou eu. Então quem vai avaliar se eu vou permanecer ou não sou eu e os vereadores que aqui estão, que foram aqueles que votaram em mim, com exceção do Carlinhos e do Ney, mas os dois também irão me avaliar se eu tenho condições de permanecer a frente dessa função ou não. O que aconteceu nesse entrevero. Nós recebemos um projeto para votar, em relação à reforma administrativa que a prefeitura estava fazendo. Eu, particularmente, não tive o acesso na integra do projeto, e queria ter lido, como outros vereadores também queriam ter lido o projeto na íntegra. Até porque ia mexer diretamente na vida funcional dos servidores comissionados. Esse projeto estava prevendo retirar alguns benefícios desses servidores, e eu não concordava. Eu acredito que você sempre tem que defender o trabalhador, independente se ele é concursado ou comissionado, ele está lá trabalhando, doando o seu tempo e recebendo por aquilo. Então uma vez que a gente começa cortar licença prêmio, falta abonada, quinquênio, começa a cortar o adicional se o cara tem curso superior, hora extra, banco de horas, então é assim, você está tirando os benefícios, e eu não concordava com isso. E nesse sentido houve essa dificuldade até por conta disso, mas enfim, mesmo com essa dificuldade vocês devem ter acompanhado a sessão, a sessão foi uma sessão tumultuada, tensa. Acabamos votando o projeto, mas mesmo assim eu deixei claro que eu não concordava.

Hoje: Essa questão de cargos, como é tratada?

Doda: Os cargos não são meus, os cargos são da prefeitura. É do executivo. As pessoas elas não estão prestando um favor para a prefeitura, como os comissionados daqui também eles não estão prestando um favor pra Câmara, eles estão trabalhando. E recebem por isso. Os cargos que são meus, são os quatro assessores aqui que eu tenho autonomia de mexer de mudar a hora que eu quiser. Agora a gente sabe que na questão política sempre tem as negociações e os interesses políticos e de grupos. Isso tem e isso vai ter e não vai acabar. Podemos fazer a reforma política no país inteiro. Essa questão de função de cargo de confiança ela tem em qualquer lugar.

A entrevista se estendeu e você pode acompanhar a 2° parte dessa interessante conversa ouvindo o áudio que nós disponibilizamos para você, na íntegra.

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