“Era ‘rejeitado’ em alguns processos por ser taxado com subversivo. Tudo isso por conta do período acadêmico e os anos de Chumbo”, diz Dr. João Melo.

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João Melo discursando na Tribuna Livre da Faculdade São Francisco, em 1967
João Melo discursando na Tribuna Livre da Faculdade São Francisco, em 1967

Durante o golpe, que muitos dizem ter iniciado na noite de 31 de março e concluído em 1º de abril de 1964, sempre tem uma versão diferente. O movimento estudantil predominou na luta contra a ditatura, centenas de estudantes foram presos, torturados alguns até desapareceram ou morreram durante os anos de chumbo, muitos até antes disso.
Advogado de sucesso, João Melo foi um dos estudantes perseguido durante o regime militar. Preso e exilado em 1968, foi terminar seus estudos na França, antes passou pelo Uruguai, retornado ao Brasil no final dos anos 70 e fixando residência em Itapecerica da Serra. Hoje com 70 anos, ele relembra os anos em que viveu a Ditadura Militar na pele. Trotskista por convicção nunca foi comunista e se diz socialista e a favor da reforma agrária. Segundo ele, o golpe foi preparado com anos de antecedência pela burguesia que temia a reforma de base do governo Jango (1961/64).

Dr. João Melo durante a entrevista em sua casa, Itapecerica da Serra
Dr. João Melo durante a entrevista em sua casa, Itapecerica da Serra

Em entrevista exclusiva para o jornal Hoje, Dr. João Melo diz que no início da sua carreira tinha dificuldade de exercer sua atividade profissional. Ele conta que nos Tribunais, era “rejeitado” em alguns processos por ser taxado como subversivo. Tudo isso por conta do período acadêmico e os anos de Chumbo.
Filho de fazendeiro no interior de São Paulo, município de Taquaritinga, 333 quilômetros da capital, João Melo saiu da cidade ainda jovem e foi estudar na Captura de tela inteira 15042014 193757capital, Faculdade de Direito São Francisco, em 1961, a maior faculdade de direito do Brasil na época. Ele relata que durante as férias ia para Taquaritinga visitar os pais, o então prefeito, Waldemar Ambrósio o alertou para o golpe que aconteceria meses depois. “Olha toma cuidado, estão preparando um golpe para derrubar o presidente. Fiquei atordoado e queria ir para Brasília para avisar Jango, olha como a gente era inocente. Isso aconteceu durante as férias de final de ano. Quando voltamos para a faculdade, em fevereiro, já estava tudo dominado pela direita. Já havia um movimento fascista na faculdade. Eu fazia parte do Movimento Onze de Agosto, alunos que lutavam pela liberdade e o socialismo e do outro lado, os radicais, fascistas estavam formando o movimento CCC – Comando de Caça aos Comunistas que agredia os estudantes. O movimento tinha o apoio da direção da faculdade. Que depois se espalhou para outras faculdades. No início de 1964, o Centro Acadêmico chamou o Ministro da Reforma Agrária, João Pinheiro Neto, para uma conferência. Ele foi impedido de fazer a conferência, a direita já unida não deixou; isso no inicio de março, o que causou uma briga entre os estudantes”.
A perseguição começou em Taquaritinga. “Eu fazia parte da Frente Nacionalista, informaram ao Dops [O termo ‘Dops’ significa Departamento de Ordem Política e Social, criada para manter o controle do cidadão e vigiar as manifestações políticas na ditadura pós-64 instaurada pelos militares no Brasil. O DOPS perseguia, acima de tudo, as atividades intelectuais, sociais, políticas e partidárias de cunho comunista] minha atividade e eu passei a ser seguido; chegaram à minha casa, em Taquaritinga, entraram e tentaram prender minha irmã. Naquela época, meu pai era amigo de um desembarcador, achava que ia resolver, mas, naquela altura o desembarcador não tinha mais força. Eu era companheiro do Rui Falcão, Rui Guete Falcão, ele suprimiu o Guete depois. Rui Falcão foi preso depois sofreu tortura. Nesse período eu já tinha feito campanha para o Jânio. Porque o Jânio voltou diferente depois da renúncia, tinha condecorado o Che Guevara e os candidatos para governador de São Paulo era Ademar de Barros, direita pura, José Bonifácio Nogueira, um meio a meio. Jânio que representava a esquerda. E nós da esquerda revolvemos apoiar”. Captura de tela inteira 15042014 194734
Depois do golpe houve uma intervenção no Onze de Agosto e os alunos passaram a fazer oposição inteligente. “Quando o Ademar, governador que contribuiu com o golpe percebeu que ia cair, correu atrás da gente e propôs um acordo para criar um novo Movimento Nove de Julho, pouca gente sabe disso, ele tentou criar um Levante São Paulo. Ninguém queria levantar nada com o Ademar. Mas, houve uma tentativa de armar um novo golpe começando por São Paulo, igual ao movimento de 32. Em vão”.
Existiam dois tipos de secções na prisão: a secção política e a secção social. Os estudantes da São Francisco que foram presos foram para a secção política, poucos foram torturados, já os que foram para a secção social eram torturados de forma doentia. “Tentamos reativar o Onze em 1966, para que todos os movimentos pudessem atuar, aí veio a prisão junto com o Zé Dirceu, que era da Católica, o Sérgio Lazarini, ex-presidente do Onze. Eu era candidato a presidente do Centro Acadêmico, ainda tinha o Aloiso Nunes Ferreira, que hoje é o Senador da República por São Paulo. Eu vinha de carro atrasado para a pleito acadêmico, nisso a polícia já estava lá, eu não vi. Poderia ter indo embora, mas já que cheguei fui preso também. Duzentos estudantes foram presos naquele dia, o pessoal do Dops tinha as fichas e fui um dos escolhidos. Então, da São Francisco foi eu, o Aloisio e o Sérgio Lazarini. O Rui não foi preso junto, ele era do Partido Comunista, eu não era comunista, eu era socialista, eu queria uma melhora social e uma reforma agrária, eu não queria radicação, mas quase entrei na guerrilha. Eu fiquei preso por uma semana, mas não fui torturado, descobrir a relação da polícia com os presos; existiam duas secções no Dops: a secção política e a secção social. Os estudantes da São Francisco presos foram para a secção política, poucos foram torturados, já os que foram para a secção social eram torturados de forma doentia. Os anos piores de tortura foi depois de 1967. Nesse período fui ‘convidado’ a sair do país. Entre 64 e 67, houve a Ditatura Envergonhada, como diz o jornalista e escritor Elio Gaspari”.
Captura de tela inteira 15042014 195339“Os militares não queriam uma cisão dentro do quartel, tanto é que deixaram uma eleição para governador acontecer; ganharam em Minas o Israel Pinheiro e o Negrão de Lima, no Rio de Janeiro, para os militares já havia uma rearticulação para derrubar o golpe, então eles forçaram o Ato Institucional número cinco – AI5. Foi terrível”.
“Quando voltei do exílio fiquei marcado como subversivo e tive dificuldades de exercer minha função no início da carreira. Hoje tenho orgulho de ter contribuído de alguma forma para a liberdade de expressão que vivemos hoje”.


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