Acervo – Desarmamento

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Acervo – Hoje online | Publicado originalmente em 03.mai.2005

Por: Sérgio Vaz, poeta

O desarmamento da população, campanha promovida pelo governo, vem obtendo resultados acima do esperado, apesar dos organizadores não honrarem todos os compromissos de pagamentos pelas armas, conforme o prometido. Até aí nada de novo, não é a 1ª vez que o governo dá calote no povo da periferia. O importante são as armas fora de circulação, e, quer saber mais? Não acho que, quem anda armado mereça qualquer tipo de recompensa, mas, negócios são negócios -quem atrasa pagamentos sabe-, e desarmar corações levaria muito mais tempo, e, com certeza, sairia muito mais caro.

Com menos pólvora no ar e com a alma mais tranqüila queria aproveitar o clima de adeus às armas para propor ou incluir, como queiram, uma campanha cuja as canetas, que representam uma grande ameaça às estruturas de uma sociedade, por serem armas poderosas nas mãos de poderosos, também fossem tiradas de circulação. Também ofereçam recompensa pelas canetas de acordo com sua periculosidade. Elas também escrevem poemas, mas são como revólveres, o que conta é a maldade, não o calibre.

Por ser uma arma refinada e portada por mãos menos calejadas, as canetas (sem generalizar) não parecem tão perigosas, e algumas vítimas (sem generalizar), desesperadas, e que tiveram pouco acesso à elas, preferem portar pistolas, para cometerem os mesmos crimes. Com as mãos cheias de sangue, caçam os que têm as mãos cheias de tinta. Paradoxalmente a caneta chupa o sangue do pobre e o revólver a tinta do rico. Precisamos desarmar o espírito dos dois. Se basta de chinelos, basta de gravatas!

Outro dia na baixada fluminense, cheio de pólvora nos olhos, policiais separaram 29 corpos de suas respectivas almas. Bandidos sem almas torturaram até a morte uma senhora de 80 anos com diversas coronhadas. E um dia desses, uma simples canetada, desviou toda verba destinada às crianças carentes de uma entidade, que por motivos óbvios jamais lerão esse artigo. Como se pode ver, de chinelo ou de gravata, no varejo ou no atacado, tanto faz pra quem é a vítima.

E como prova de boa vontade a população incumbirá de recompensar, do seu próprio bolso, por algumas canetas perigosíssimas que circulam por aí, ex: a do juiz que condenou uma empregada doméstica por furtar um shampoo e um condicionador, e por conta desse crime hediondo está há 11 meses na cadeia, só que, torturada por outras presas, perdeu um olho e agora vê o futuro pela metade; a caneta dos que sabem o que acontecem e não escrevem sobre isso e a caneta dos que mantém longe das grades, todos os patrões que nos querem reféns, sob a mira da lei, neste quarto de despejo chamado periferia.

Se sobrar caneta, escreva PAZ com as duas mãos.

” A minha poesia, apesar
de pouca e rala

cabe dentro da tua boca, dentro da tua fala.

Apesar de leve e rouca, chora em silêncio

Mas não se cala. Apesar da língua sem roupa

Não engole papel…

Cospe bala!

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